quarta-feira, 14 de setembro de 2011

FRAGMENTOS DE MARIA



Certa vez, num "distante" tempo histórico (minha adolescência), folheava um jornal e encontrei um belíssimo texto do colunista F. Pereira Nobrega. Li o texto e encontrei nele muito de minhas características adolescentes, recortei-o do jornal, o guardei em minha caixa de memórias e agora o publico.

A FILHA

Ela se veste, se pinta, se vai. Para onde sempre diz. Tomou posse de sua vida. Quer sentir-se dona de seu nariz. É a marca registrada de sua idade.

Foi tudo tão rápido! Quisemos ter um filho e a primeira criança foi ela. Até então, na garganta da mãe dormiam canções de ninar que aguardam o primeiro filho para fazê-lo sonhar. Na Sua imaginação podiam ser contadas estórias de reis e de fadas, de príncipes encantados, de ilhas de mistérios e miragens do além. Diante do berço vazio todas elas montavam a vigília da esperança de transmitir a vida.

Mas o berço sumiu com a criança na primeira esquina do passado. A menina que carreguei no colo é hoje a jovem que se carrega. Cresceu sem pedir licença. Fez moça sem ser convidada.

A jovem se posta diante do espelho e sente obrigação de contribuir para que no mundo haja mais beleza. Descontente consigo mesma, reclama sempre de algo de seu corpo, talvez o nariz, talvez o cabelo. Teme emagrecer, teme engordar.

Seus passos se perderam de meus passos. A mão não mais segura à mão, quando a filha se deixava guiar pelo pai. Nem suas palavras são mais de quem a ensinou a falar. De sua “galera” diz que é “massa”.

Seus ritmos não são meus ritmos. Ri de minhas canções prediletas com ares de tempos idos. Fala de seus cantores, de seus ídolos. Sente saudades até de quem nunca viu, como os Beatles, dos anos 60.

Chegou triste, falou pouco, trancou-se. Terminou um amor? Não me preocupo, não é nada grave. São coisas da idade. Um dia eu a coloquei vazia num berço vazio, sem os segredos que hoje carrega. Cresce a interioridade no adulto que com segredos ninguém nasce. Ela era uma porta aberta quando nasceu. Hoje se fecha por dentro e só ela tem a chave.

Quase todas essas histórias terminam iguais. Um dia ela vai me dizer: apresento seu futuro genro. Posso gostar, não gostar. Só não posso dizer que genro meu não será. A gente tem filhos para perdê-los nas mãos de outros que não os criaram. A liberdade que tive de pôr uma criança no mundo é que ela terá de fazer sua vida por seus próprios passos.

Em nossas relações vai terminando a era do mando. Parece que vai se acabando o pai, só o amigo ficará. Quando a hora é difícil, ela me procura, me confidencia. O pai manda cada vez menos nesta amiga que o acata cada vez mais. Não é mais a mão segurando a mão. Mas ainda é coração preso ao coração.

Em minha casa, há muito tempo, um berço ficou vazio e já foram cantadas todas as canções de ninar. Como se ainda as ouvisse, agora eu é quem vou adormecendo. Se passar por aí uma jovem que se parece comigo, se vibra com as canções de Axl Rose, se gosta de aeróbica, se ainda discute consigo que profissão seguirá- você já adivinha que é ela. Trate-a bem. Sou eu depois de mim. Ela é minha contribuição para uma humanidade mais livre e responsável. Mais bela, também.


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